Tenho preconceito com cinebiografias e documentários da Globo. Não… vou reformular: tenho um receio totalmente justificável. Admito. Muitas dessas obras produzidas nos últimos anos, principalmente desde a criação do streaming GloboPlay, se aproveitam do culto a celebridades para despachar produtos fáceis de se fazer e que possuem um retorno financeiro positivo. Temos imagens de arquivo de toda carreira de um artista, costuramos uma narrativa, aproveitamos do apelo que aquela figura tem ao público, divulgamos trailers para caçar assinaturas e despachamos no catálogo do aplicativo. Fácil, lucrativo e vazio. Perfeito.
Dito isso, fiquei surpreso quando comecei a assistir Viva Marília, documentário que conta a trajetória da atriz Marília Pêra: encontrei algo diferente. Há um cuidado perceptível em cada etapa da vida da artista, sustentado por um acervo de fotos e vídeos que vai da trajetória dos pais dela à infância, até os últimos trabalhos. Essa curadoria mais atenta não é estranha quando se descobre que boa parte da equipe é formada por gente próxima de Marília: a codireção é de sua filha, Esperança Motta, e o roteiro é assinado pelo ex-marido Nelson Motta, jornalista e compositor com uma trajetória sólida na música brasileira.
A direção é assinada pelo cineasta Zelito Viana, que já entregou trabalhos conhecidos do cinema brasileiro, como Morte e Vida Severina e Os Condenados. Essa competência de linguagem é perceptível durante toda a narrativa, que se desenvolve com ritmo leve e fluido, mas informativo. Não há cantos da vida de Marília que fiquem intocados, mas em vez de focar só na parte profissional, vemos também o outro lado da atriz. Pelo menos pra mim, sempre associei o rosto e a fisicalidade dela mais como uma diva, uma figura poderosa em cena e quase intocável. Conforme sua vida vai sendo narrada — e por ela mesma, em entrevistas, o que é uma boa sacada —, parece que até o rosto dela vai tomando outra forma. Comecei a ver um ser humano de carne e osso, não uma deusa. Isso no melhor sentido possível.
Há pequenos aspectos técnicos que me tiravam da imersão, mas nada muito grotesco, mais coisa de quem tem um olhar chato para cinema, como eu tenho. Posso citar dois exemplos. Diversos áudios foram cortados de forma brusca por outros durante transições de cena, causando ruídos na experiência: é como se tivessem aplicado o efeito de "fade out" antes da hora. Na narrativa, senti falta de saber como foi a transição de Marília do teatro para a televisão. Como ela foi descoberta? Fica parecendo uma lacuna, um pulo na história. Mas nada disso afeta o resultado como um todo.
No fim, Viva Marília escapa da fórmula que eu tanto temia. Não é um produto costurado às pressas pra render assinatura de streaming, mas um retrato feito por quem a conhecia profundamente como artista, mulher e ser humano. Talvez seja bom reconhecer quando a desconfiança inicial não se confirma, ainda mais quando o resultado é tão bem cuidado. Fica a lição: nem toda cinebiografia é aquele "kit pronto" que citei lá atrás, e essa é uma exceção que vale a pena ver nos cinemas.

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