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Com muito blá-blá-blá, Iñárritu fala sobre o homem que queria ser Deus em Digger

Digger é um daqueles personagens que sempre deixa um rastro. Pergunta sem querer saber a resposta. Responde sem nem ouvir a pergunta. Pelo c...

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Com muito blá-blá-blá, Iñárritu fala sobre o homem que queria ser Deus em Digger

Com muito blá-blá-blá, Iñárritu fala sobre o homem que queria ser Deus em Digger


Digger é um daqueles personagens que sempre deixa um rastro. Pergunta sem querer saber a resposta. Responde sem nem ouvir a pergunta. Pelo caminho, ficam migalhas de tudo que veste, pensa e verborragicamente expele. É o beabá do narcisista que Tom Cruise tão bem interpreta no longa que, por lógico, recebe o nome do personagem.Crédito: Warner Bros. Pictures/Divulgação


Digger (2026) é o mais novo filme de Alejandro González Iñárritu, diretor mexicano que dominou o cenário cult com 21 Gramas (2003) e Babel (2006), além do cenário popular das premiações com Birdman (2014) e O Regresso (2015). Depois de um decepcionante Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades (2022), o cineasta busca voltar aos holofotes com um grande bang.


Os filmes de Iñárritu podem ser descritos de diversas formas, mas talvez o termo mais recorrente seja “ambicioso”. Digger segue essa cartilha, tanto em forma como em conteúdo. A obra mostra Cruise como o personagem titular, um petroleiro de primeira classe, cuja corrida pelo óleo é em iguais partes hereditária e poderosa. Quando uma das perfurações realizadas por sua empresa resulta em uma catástrofe ambiental, um nem-um-pouco-sutil jogo de poder passa a ser disposto à nossa frente.


É aqui que entra a primeira e principal camada de Digger: seu jogo de intenções. Não há nenhuma sutileza na construção de seus personagens. Digger Rockwell é um cartunesco vilão, com um ego maior que a barriga e um gato moribundo cuja dieta consiste em atum de fina estirpe. Já o presidente Compson é uma sátira clara de todo e qualquer Republicano que tem Donald Trump como pastor. Essa indelicadeza traz um sentimento estranho, uma confusão dentro do próprio texto elaborado por Iñárritu, Sabina Berman e Jez Butterworth.


Existe um momento em Digger em que tudo muda - e que não vamos explanar aqui. Porém, é nessa troca de ato que o espectador é posto em uma posição de escolha: entender essa mudança de fluxo como uma alavanca ambiciosa dentro da narrativa proposta pelo diretor ou como um pretexto para fuga de responsabilidade em seu próprio roteiro.


Em meio à era da desinformação, do controle de narrativa, da hipervigilância e da revolução tecnológica desenfreada, Iñárritu parece abraçar o hiperestímulo em vez da linearidade ou da ordem. Afinal, seu próprio capitão em cena diz que “o pânico é um recurso”.


Digger talvez seja o maior exercício metalinguístico da carreira do diretor. Refletindo em cima de temas como exposição, percepção e realidade, o autor não consegue sustentar suas propostas à medida que a trama avança. Chega a ser irônico quando um de seus personagens alerta o outro, temendo que ao dizer o que pensa, poderia acidentalmente dizer algo verdadeiro.


Digger é um ensaio de Iñárritu sobre poder, ambição, progresso e tudo mais que o teatro brechtiano se propõe a debater há séculos. Ainda assim, é fácil deixar a sala de cinema com dúvidas acerca da autenticidade do discurso disposto por pouco mais de duas horas na tela.


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