Gostaria de poder dizer que Virtuosas entra no gênero das distopias, daquelas obras que flertam com o absurdo, mas infelizmente ela encontra respaldo na realidade. Com direção de Cíntia Domit Bittar, que também assina o roteiro ao lado de Fernanda de Capua, o longa brasileiro tem como ponto de partida um retiro para mulheres buscarem a sua melhor versão, a partir de uma visão de feminilidade, religiosidade e submissão à família e aos filhos.
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| Crédito: Olhar Filmes |
Virgínia (Bruna Linzmeyer) é uma coach — daquelas que têm aos montes na internet — que prega um determinado papel para a mulher e promete ensinar como chegar à melhor versão de cada uma. Como? Dedicando-se ao lar, ao marido e aos filhos. Ela seleciona três mulheres para embarcarem nesse retiro.
A jornada de autoconhecimento passa a revelar uma visão de mundo completamente arcaica, em que a mulher deve performar feminilidade, buscar agradar ao marido e entender que ela é o pescoço enquanto ele é a cabeça da família. O discurso do filme repete toda a cartilha da mulher submissa ao homem, aos filhos e ao lar. Como se esse fosse o único destino que uma mulher pudesse querer — ou merecer. Como se o valor de uma mulher pudesse ser medido pelas roupas que veste ou pela obediência que deve ao marido (sic).
É uma cartilha que, desde que me entendo por gente, acho pavorosa e que, até pouco tempo atrás, parecia um discurso renegado ao passado. Conquistamos direitos, com muito suor e sangue. Seguimos buscando mais igualdade. E agora decidiram que não: mulheres têm direitos demais, estão querendo muito ao pedir apenas por igualdade. Talvez eles estejam certos. Talvez a gente devesse pedir por justiça ou por vingança contra todos que já atentaram contra nós.
Obviamente, o filme é uma crítica a toda essa onda conservadora e hipócrita. Cena a cena, a personagem máxima das virtuosas vai caindo por terra e mostrando o que realmente está por trás daquele discurso: poder. O que, aliás, normalmente está.
Fico feliz de ver que o cinema nacional não tem se restringido às comédias e comédias românticas, mas tem se permitido flertar com outros gêneros. Aqui, o escolhido é o thriller psicológico, mas sempre com um gostinho de brasilidade — que, dessa vez, fica por conta da trilha sonora.
Bruna é o diamante do filme, em mais uma atuação impecável. Ela carrega boa parte dos elogios à obra. Já a possível mocinha, Germina, carece de mais energia e, talvez, de um pouco mais de cinismo. A mulher do deputado, por outro lado, encarna bem a loucura da personagem. A terceira virtuosa fica como coadjuvante, sem que sua história seja aprofundada ou ganhe grandes cenas de impacto. Um desperdício.
Talvez eu seja muito conservadora — apenas para isso — com filmes modernos que insistem em finais abertos ou inacabados, mas Virtuosas me deixou com aquela sensação de: “É assim mesmo que vai acabar?”. Aquele desejo de querer mais, de entender o que acontece agora que todas as peças se encaixaram e tudo foi revelado (ao menos para nós).
Acho que o filme é um norte para o cinema nacional na exploração de outros gêneros, além disso, ele mostra a capacidade da arte de oferecer críticas à realidade que vivemos. A arte é política — e é extremamente virtuoso compreender isso.
Assista ao trailer


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